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Uma cidade para todas as idades: o olhar dos 60+

Pitico Fernando Priamo

Toda cidade é construída para promover o bem-estar, o convívio e o encontro das pessoas. Afinal de contas, a cidade é o nosso lugar no mundo. Só que não é bem assim. Juiz de Fora, por exemplo: uma cidade que tem mais de 100 mil pessoas idosas, faz muito pouco por elas. Como eu escrevi na Coluna, de domingo passado, parece que a cidade, os juiz-foranos e as juiz-foranas, não notou que envelheceu. Como diria o poeta, “ficaram velhas, todas as coisas, eu mesmo envelheci”. E, se você, caro leitor e leitora, me permite apresentar a minha perspectiva, de como eu vejo a cidade hoje, principalmente no Centro, simbolicamente, representado pelo “Calçadão”, eu digo, que me sinto mais um no anonimato da vida urbana.

Tenho a visão de muitas pessoas que passam por mim, mas, de fato, é como se fôssemos estrangeiros vivendo na mesma cidade. Percebo uma distância afetiva da cidade, quando desço ou subo o Calçadão. Vejo muitas pessoas, um mundaréu de gente, como diria minha mãe, mas elas pouco me veem. Não que eu tenha motivos para ser visto e chamar a atenção. Não é isso. É pela falta de contato humano, pelo adiamento ou impossibilidade do encontro. A campanha do diretor teatral “Gueminho” vem em boa hora. “Vamos ocupar o Calçadão”. É digno de registrar aqui, as iniciativas de amigos e colegas que se juntam na esquina da galeria para jogarem “purrinha”. Depois, juntos, eles tomam café, tendo assuntos para a semana inteira.

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Do lado feminino, é muito interessante e saudável ver os movimentos das mulheres na criação de espaços de conversas entre elas para a manutenção do afeto e para a expansão de outras iniciativas de socialização. A cidade nos submete a enormes desafios cotidianos à medida em que envelhecemos: calçadas esburacadas; ônibus lotados com degraus muito altos para embarque e desembarque; tempo para travessia de ruas compatível para quem é atleta de alta performance; falta de bancos para descanso; falta de mais espaços de convivência e de atividades culturais especificas. Nossa cidade pode mudar esse quadro. Podemos ter aqui um planejamento urbano, um futuro de cidade, no presente que fazemos, que começa agora, colocando as pessoas idosas na centralidade da agenda pública.

É urgente tirar as pessoas idosas da invisibilidade social e urbana. Uma cidade que se deseja ser democrática não pode deixar ninguém de fora. Muito menos quem mais fez por ela, e pode continuar fazendo, que são as pessoas idosas. Não é justo que isso aconteça, que continue acontecendo. As contribuições das pessoas idosas para a vida urbana vão além de suas trajetórias pessoais de vida, elas estão presentes na preservação da memória e identidade cultural da cidade: transmitem saberes populares, tradições, histórias locais e valores. Compartilham experiências de vida e profissional com as gerações mais novas.

Na realidade, eu acredito que as cidades, como a nossa, só serão verdadeiramente sustentáveis e humanas quando reconhecerem as pessoas idosas como parte ativa e valiosa da sociedade. E devemos caminhar para essa direção o mais rápido possível diante da velocidade do nosso envelhecimento. Todos nós temos o direto de envelhecer na cidade, com dignidade, com qualidade de vida e com políticas públicas eficazes. A cidade que desejamos, que eu desejo é uma cidade que é muito mais do que feita de ruas, prédios e farmácias. Para mim, ela é um espaço de memórias afetivas, de carrinhos de pipocas, de desafios cotidianos e de sonhos por uma convivência intergeracional, inclusiva, diversa e plural de todas as idades.

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