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Pobres, pretos e velhos: invisíveis

Pitico Fernando Priamo

Existe um país que não aparece nas vitrines, não entra nos discursos oficiais e não dá ibope no horário das oito. Ele anda devagar, fala baixo e aprende cedo a pedir licença para existir. É o Brasil dos pobres, dos pretos e dos velhos invisíveis – não por acaso, mas por construção. A invisibilidade não é mero esquecimento: é apagamento. É quando o corpo está próximo, mas o olhar passa batido.

É quando a dor vira estatística, e a vida, é um simples detalhe. Pobres são vistos como números; pretos, como suspeitos; velhos, como pesos. A soma disso tudo configura um país que se recusa a encarar a sua própria imagem. Ser pobre é ser culpado antes de qualquer julgamento. É explicar a fome como falha moral, a miséria como preguiça, a exclusão como falta de mérito.

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Ser preto é carregar a memória de um crime nunca reparado. A cor da pele ainda define quem pode errar, quem pode correr, quem pode sonhar. O racismo é cordial, sorridente, institucional. Ser velho, por sua vez, é ser descartável. Numa sociedade que cultua a juventude como mercadoria – envelhecer -, como é o que está acontecendo no tempo presente – virou quase que uma infração. Porque o idoso atrapalha o trânsito, aumenta a fila do supermercado, e é despesa no orçamento público.

Esquecemos que ele é o futuro que chegou antes de nós – e sobreviveu -. Pobres, pretos e velhos carregam no corpo e na alma a marca de que o Brasil falhou. Eles denunciam, com a própria realidade do cotidiano, a mentira de que “todos somos iguais perante a lei”. Mentira. E resistem: na periferia, no ônibus lotado, nas filas das agências bancárias, na memória que insiste e resiste.

São essas pessoas que sustentam o nosso país e as nossas famílias com o trabalho mal pago, com o afeto silencioso e preso e uma dignidade nas relações que não sai nos jornais. Não basta não ser racista. Não basta não ser cruel. Não basta “não concordar”. A indiferença também constrói desigualdade. O silêncio também vota. O olhar que se afasta também escolhe. Talvez o maior incômodo não seja enxergar os invisíveis, mas admitir que a invisibilidade nós é cômoda e facilita a nossa vida. E portanto, se isso nos beneficia, então, também, nos responsabiliza.

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