
“Eu dei tudo o que eu tinha e o que Deus me deu para sobreviver”. Essa frase foi dita pela cozinheira Edna Silva, de 56 anos, uma das milhares de vítimas do pior temporal que atingiu a cidade de Ubá nos últimos tempos. Ela ficou conhecida, nacionalmente, por sua força de querer continuar viva. Agarrada a um poste durante cerca de três horas, a mulher enfrentou uma enxurrada impiedosa, enquanto via sua casa e seu restaurante serem arrastados pela correnteza, numa rua central do município.
Sem saber nadar, Edna contou que só pedia a Deus que não a deixasse morrer afogada. Ela já estava de casamento marcado, mas seu namorado Luciano Franklin, de 50 anos, que estava com ela no momento em que a água começou a subir, foi arrastado e estava entre os desaparecidos.
A luta pela vida travada por essa mulher serve de exemplo da força que, muitas vezes, as pessoas não sabem que possuem. Trata-se de uma energia que apenas surge nos momentos de maior necessidade, empurrando a vida para frente. Ela conseguiu escapar depois que um morador lançou uma corda, que a ajudou a se manter próxima ao poste até que o volume da água diminuísse.
A história da cozinheira deixa um misto de emoções contraditórias. De um lado, desperta o sentimento de esperança, ao mostrar que a vida é um bem precioso, pelo qual somos capazes de lutar com todas as forças. De outro, deixa a indignação, pois a tragédia testemunhada por ela, assim como por tantas outras vítimas em Ubá e Juiz de Fora, era previsível. Um alerta do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), emitido em 2023, já apontava os riscos. Há quem diga que não é hora de buscar culpados, mas eles existem e chegará o momento em que serão cobrados. Soma-se à responsabilidade deles a descrença quanto aos sinais da natureza no que diz respeito às alterações climáticas.
A desigualdade social é uma mazela histórica de nosso país, e o pobre é quem mais sofre com suas consequências. A construção de casas em encostas ou nas margens de rios não é sonho de vida, mas sim o que se torna possível. A exploração imobiliária obriga quem tem menos a ocupar as áreas menos nobres. Essa é uma das facetas da disparidade social brasileira, que, inclusive, coloca Juiz de Fora como a 9ª cidade com mais pessoas vivendo nesses locais (cerca de 129 mil). Ubá tinha 7,4 mil vivendo em regiões vulneráveis, conforme dados apontados pelo Cemaden.
É preciso que a sociedade se conscientize, aprenda a cobrar e utilize as ferramentas necessárias contra o descaso. Também cabe às autoridades constituídas fazer aquilo que delas se espera: agir com responsabilidade, planejamento e respeito à vida. Tragédias não podem continuar sendo tratadas como fatalidades inevitáveis. Nosso coração já não aguenta mais cenas como a de Edna agarrada a um poste, lutando sozinha contra uma correnteza que poderia ter sido evitada.
